fevereiro 22, 2015

Gravação do CORAL BAUKURS

Gravação de corais podem ser um grande desafio. Salas grandes e não preparadas, dezenas (se não centenas) de pessoas envolvidas, barulho externo, longas horas de trabalho e testes…
Há muitos anos atrás fui convidado para uma gravação “ao vivo” do coral BAUKURS a capela, utilizando uma sala localizada na Escola Corcovado em botafogo, prédio que na época do Rio de Janeiro capital do país abrigava a embaixada dos Estados Unidos. Como era de se esperar a construção é realmente maravilhosa, pé direito alto, paredes robustas (sonho de qualquer projetista), 3 andares que a noite ficam totalmente vazios.

Na primeira visita com o regente do coral, Júlio Moretzhon, decidimos gravar no hall do segundo andar. Esse hall é cercado por salas, o que ajudaria no isolamento relativamente precário. O único problema era a existência das escadas larguíssimas bem no meio do hall, o que proporcionava um tempo de reverb tão longo que poderia até ser usado como efeito especial, mas para uma gravação de coro não gregoriano seria um pouco demais, algo em torno de 7s. Além disso, na parede em frente à escada uma enorme janela de 3 andares!!! eu disse três andares!!! Essas janelas estavam emperradas há décadas! Pronto, se fazia necessário o jeitinho brasileiro.

Combinamos com o regente que seus coralistas trariam o máximo de cobertores possível.
É chegado o grande dia. Pronto, desencalhamos nosso velho e bom adat LX-20, que quando compramos pareceu o melhor negócio do mundo, pegamos também nossa Yamaha O2-R, um pré-amp aphex estéreo, um equalizador aphex estéreo, 2 AKG C-414 TL-II (o douradinho), 2 AKG C-391 e nosso brinquedo mais novo, um Avalon VT-737 (que levaríamos para seu primeiro passeio depois da vacina). Levamos também os pedestais e os indispensáveis sacos de areia, sim sacos de areia. Tente colocar US$1500,00 num pedestal de R$45,00 a uma altura superior a 3 metros e você notará a necessidade dos nossos práticos sacos com areia de Copacabana. É claro que não podemos esquecer da sacola cheia de cabos extras, réguas, estabilizadores, extensões e outras chatices necessárias.

Vamos pular a parte chata do desce escada, sobe escada, enche o carro, esvazia o carro e vamos direto pro nosso Hall tão querido. Como ela era basicamente retangular resolvi dispor o coro de frente para a tal escada maldita e sua janela milenar. Nesta posição os mics, configurados no modo cardióide, ficariam de costas para a maior entrada de ruído (o janelão). Com essa posição do coro e com os mics bem afastados eu poderia obter o maior efeito estéreo que a sala poderia me dar.

Nesse momento começavam a chegar alguns cobertores das mais variadas cores e tamanhos. Imediatamente uma equipe paralela se formou em volta dos cobertas e munidos de silver tape, fita crepe, alfinetes de fralda, tesouras, cordas etc… começaram a dar forma ao que me pareceu a maior e mais feia cortina que já vi na vida. Com essa enorme colcha de retalhos conseguimos, com muito trabalho do nosso assistente, cobrir toda a extensão da escada, e ainda sobraram cobertores para as janelas “imexíveis”.

Após nosso barraquinho chique armado posicionei um C-414 bem em frente ao coro o mais longe que pude, com a figura cardióide, para obter uma imagem mono do coro, e com um pouco menos de ambientação (o cobertor logo atrás do microfone ajudou a diminuir a reverberação da sala). Outros dois C-391 foram posicionados um de cada lado do coro um pouco a frente dos 414. Liguei o do meio no Avalon (que delícia, apesar de soar um pouco mais grave do que pensei) e os dois C-391 das pontas liguei nos Aphexs (estes já não soaram tão graves, como já seria esperado).

Todos os pedestais estavam devidamente reforçados pelo peso dos sacos de areia. Rodei o mínimo possível meus queridos botões e o som já estava excelente, graças é claro ao trabalho maravilhoso que o Júlio Moretzohn faz com todos os coros que rege. Tentei equalizar o mínimo possível e, como sempre, procurei filtar mais do que acrescentar. Com o eq Aphex eu tinha apenas duas bandas para cada microfone C-391, então acresci uns 5db em 20Khz e procurei uma frequência entre 300 e 600Hz e atenuei. Essa frequência eu definí colocando um Q pequeno, um boost de uns 6dB e rodando o botão da frequência até achar algo que pareciam fantasmas conversando no fundo da sala (cheguei a levar um susto). Essa era a faixa de frequência onde a sala embolava mais o sinal do coro, abri um pouco o Q e atenuei em uns 4 ou 5 dBs ajudando a clarear o som. No pré, filtrei 80Hz, afinal nossa escola não era tão silenciosa quanto gostaríamos. Estávamos trabalhando com um coro de mais de 30 vozes. Já tive o prazer de gravar um coro de mais de 120 (uma PRESSÃO!!!) e a diferença entre essas duas formações não é tão grande quando se poderia imaginar.
Normalmente o naipe dos baixos sempre é o menor, devido, é claro, a dificuldade de encontrar cantores nessa região. Na maioria das vezes barítonos assumem essa função o que tira um pouco da pressão nas regiões mais graves. Em alguns momentos sentia falta do peso dado por essa região das vozes. No nosso caso os baixos ficaram no centro do coral posicionados no fundo da sala. Coloquei então mais um C-414 no meio dos homens no fundo do coral, dessa vez em omni-direcional. Pronto já tinha todo o grave que queira e um pouco mais da belíssima ambientação que nosso hall proporcionava.

Como só tinha levado três canais de pré externos tive que ligar esse quarto microfone direto na mesa e como estava gravando em 4 canais separados, poderia lidar com o volume desse canal depois. Com tudo ligado na O2-R tudo chegava ao adat em 24bits, o que gasta o dobro de canais. Lindo!!! Regulei os compressores da O2-R para atuarem quase que somente nas notas mais agudas das sopranos, que normalmente são as que têm o maior volume. Tomei cuidado também porque essas notas costumam ser empostadas e têm tanto volume que podem distorcer o mic antes mesmo de chegar no pré. Nesse caso uma atenuação no mic pode ajudar, mas tome cuidado, numa parte muito mais baixa o sinal pode ser muito fraco, e isso num âmbito digital é o que menos queremos!! Quanto menos volume, menos qualidade.
O prédio fica localizado na rua São Clemente em Botafogo!!!! Mas, por sorte, bem no fundo do terreno, no pé do morro. Não tivemos então muitos problemas com o barulho do trânsito (já eram 9 horas da noite, de sexta-feira), a não ser alguns poucos ônibus enlouquecidos que passavam vez ou outra no meio do melhor take. Nossa enorme colcha de retalhos cumpriu o papel de amenizar a propagação do som pelas escadas, mas como era previsto não nos livrou de participações especiais de grilos e gambás. Lá foi o nosso assistente servir de espantalho de grilo!!
O coral BAUKURS estava soando lindamente, depois de tudo armado, funcionando, pude relaxar e praticamente só curtir a música. O que seria desse trabalho se não fossem esses momentos de magia? É realmente uma experiência muito gratificante participar da gravação de um ótimo coro, e o que é melhor só eu estava ouvindo tudo com meus inseparáveis fones K-240 (puro prazer), não a versão nova de baixa resistência e sim os antigos com 600 ohms. Levei também um outro fone de baixa impedância. Com um coro a todo vapor você pode não ouvir nada num fone de alta impedância, como o K-240. Nessa situação sempre leve em conta que os fones de ouvido não dão uma idéia perfeita da ambientação que a sala está proporcionando, procure não exagerar demais na distância dos microfones, você pode acabar perdendo presença.

Gravamos alguns takes com os naipes femininos na frente e os masculinos atrás, mas optamos por mesclar os naipes colocando sempre os baixos no meio do coro, para não desequilibrar a imagem estéreo.

Perdemos também um tempo ouvindo o coro e mudando alguns integrantes de lugar, a idéia era ter um equilíbrio perfeito de contraltos, sopranos e tenores, não queríamos que nenhum naipe soasse mais forte de um lado.
Com uma regência impecável e pulso firme, o Júlio Moretzohn conduziu a gravação por mais de 4 horas praticamente sem parar. Já gravei muito coral e ví poucos com tamanha capacidade de concentração.

Ao final da noite, início da madrugada, terminamos a gravação do dia, e logo depois do último take fomos surpreendidos por um enorme queima de fogos dos nossos vizinhos. Partimos então para devorar o imenso piquenique que estava armado na cantina da escola. Coro grande tem essas vantagens.

Gravação
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2 thoughts on “Gravação do CORAL BAUKURS

  1. Hugo disse:

    Muito bom!!! Relato sensacional!!! Esta experiência deve ter sido muito cansativa, porém, de extrema felicidade também pelo trabalho bem sucedido! Parabéns!

  2. admin disse:

    Obrigado, Hugo. Gravações em externa são sempre cansativas, ainda mais quando envolvem grandes grupos. Mas, se a música é boa, todo esforço vale a pena.

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